Caríssimos,

O mote da coluna de hoje foi dado por nossa querida Guta Braga.

Ontem no grupo MC&T do Facebook , nossa líder postou uma entrevista do DJ Shadow na qual ele dizia da quase impossibilidade de usar legalmente samples em seus discos. Como introdução, Guta contou sua própria infeliz experiência na liberação do uso de um sample, no que foi seguida por comentários que nos informaram como tentar usar legalmente um sample é uma das maneiras mais eficientes de conhecer o inferno sem morrer.

Nos longínquos estertores dos anos oitenta , quando o uso de samples se tornou popular, eu já era um rato de estúdios que produzia discos . Por isso as repercussões artísticas e legais do uso de samples sempre foi um assunto que muito me interessou.

Mas voltemos por um momento ao DJ Shadow. Nessa era de disc-jóqueis superstars ele parece condenado as sombras, mas os atuais apertadores de botão devem uma enormidade a ele e a outros precursores do uso criativo de discos. Se hoje DJs são considerados artistas, é porque  Shadow, Cut Chemist , Krush , Marley Marl e muitos outros produziram nos anos 90 música inequivocamente original a partir de gravações pré-existentes.

Feito esse necessário reconhecimento aos pioneiros do uso criativo dos samples, faço uma brevíssima recapitulação da história do uso de samples , vista pelos meus olhos:

No princípio , oitenta e muito , noventa e pouco , era o faroeste. Todo mundo se apropriava de gravações como se não houvesse amanhã. Usei alguns samples nessa época em minhas produções, cujas fontes só revelo sob tortura.

Em meados dos noventa a farra acabou. Vieram os processos e usar samples virou dor de cabeça. Surgem os discos de gravações feitas para serem sampleadas vendidas por preços absurdos. Me lembro de um disco desses em particular, que me custou mais de cem dólares, que usamos na canção “Carro e Grana” do primeiro disco solo do Leoni. No mesmo ano, exatamente o mesmo sample foi usado no super-hit “All that you want” do grupo sueco Ace of Base e em pelo menos suas faixas do disco “Calango” do Skank.  Naturalmente os discos feitos para samplear duraram pouco, abatidos pela repetição dos mesmos sons em muitas produções e fulminados definitivamente pela facilidade em fazer cópias piratas de CDs.

Pelo final dos anos 90, as gravadoras , já calejadas por prejuízos milionários , ativamente desestimulavam o uso de samples em suas produções. Apesar disso os samples permaneceram. Uns insistiam, e por preços extorsivos licenciavam samples de sucessos antigos, que garantiriam uma familiaridade instantânea ao seus discos.  Outros procuravam fontes cada vez mais obscuras para samplear , ou disfarçavam seus “roubos” de forma a torna-los irreconhecíveis ( o meu caso).

Com a explosão das trocas de arquivos de áudio na Internet no início desse século, tudo muda.  Os discos raros tornam-se universalmente disponíveis , surge uma infinidade de meios de distribuição gratuita de música. O sample fez um retorno triunfal, mas a questão da remuneração dos autores, intérpretes e músicos das gravações incorporadas a obra de outros, continua sem uma solução razoável.

Por essa época , numa visita a um estúdio, vi uma cena que hoje me parece premonitória do que viria. Músicos e engenheiros ouviam uma gravação e tentavam pacientemente reproduzi-la nos mínimos detalhes.

Com as alternativas oferecidas pela gravação digital, copiar exatamente o conteúdo musical de um disco em uma nova gravação passou a ser  o novo normal,  o velho método de apropriação ,copiar e colar uma gravação pré-existente, ainda resiste, mas  hoje é mais uma escolha estética do que um recurso prático.

A  surpreendente condenação de Robin Thicke e Pharell Williams , autores da música “Blurred Lines” pelo plágio da música “Got to Give it Up ” de Marvin Gaye , inaugurou um novo tempo na luta entre criadores originais de música e os que se apropriam dela. A partir desse caso nem os que copiam numa nova gravação elementos de uma gravação anterior , estão inteiramente a salvo dos longos braços do direito autoral.

Lamento pelo DJ. Shadow e por outros que usam criativamente fragmentos de gravações , mas parece longe o dia em que se poderá fazer isso sem perder o sossego. Criar os próprios sons ainda é o melhor negócio.

 

 

 

 

 

©2018 MCT - Música, Copyright e Tecnologia.

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?