Caríssimos,

Nós devíamos estar comemorando. Afinal , depois de anos terríveis, o nosso negócio finalmente começa a ser uma fonte de boas notícias.  De todos os lados surgem dados positivos , que prenunciam uma nova fase de crescimento sustentado para o negócio da música.

Mas nada poderia estar mais distante desse clima de otimismo  do que a conversa que eu tive hoje com o Sr. V.

Da janela do seu escritório, com privilegiada vista para a Baía de Guanabara, ele viu pop-rock , axé , pagode e forró serem os gêneros da vez. Para ele, que  surfa o mercado de shows desde o século passado, o sertanejo universitário foi só mais uma onda.

Mas como todo surfista de mercado experiente , o Sr. V surfa a onda de hoje, de olho no mar de amanhã. E se no  presente ele faz negócios lucrativos com os grandes nomes do sertanejo universitário, o futuro lhe tira o sono.

A ausência de invenção artística, a pobreza do conteúdo, a estupidez da mensagem  e outras questões subjetivas, que afligem gente como eu na cena atual da música popular de sucesso , não são questões que passam pela cabeça do Sr. V. Não é qualidade do produto que o preocupa, mas a ausência dele.

O que aflige o Sr. V e  seus colegas do mercado de shows é a rapidez meteórica com que artistas aparecem, chegam ao topo das paradas e desaparecem sem deixar vestígio.

Ele me explicou seu ponto de vista : –  “O problema é que ninguém vive de vender só o artista que está estourado. O movimento que sustenta o meu e muitos outros escritórios é dos artistas estabelecidos, aqueles que tem um público independente de terem um hit. São essas vendas , um dinheirinho que pinga toda semana , que paga as contas do dia-a-dia.”

Me parece que nas sábias palavras do meu amigo Sr. V. há uma lição para todos os que trabalham no mercado da música.

Fogos de artifício , que sobem vertiginosamente e explodem em luzes magníficas , são espetaculares, chamam a atenção de todos, mas não sustentam o interesse do público por muito tempo. O feijão com arroz que sustenta o mercado da música são os negócios com a obra de artistas que têm públicos cativos , que trabalhando ano após ano conseguiram formar uma audiência sólida, que independe de exposição midiática.

Os discos de catálogo, as canções que se eternizaram, os artistas que marcaram gerações, são, e sempre foram, a base sólida sobre a qual se ergueu o edifício da indústria musical . Ao longo do Século XX , os nomes foram mudando :  Chico Alves  foi substituído por Orlando Silva, que foi sucedido por Nélson Gonçalves, que deu  lugar a Roberto Carlos,  mantendo uma dinastia , que nunca precisou da morte de um soberano para que outro surgisse.

O que assusta o Sr V. , e deveria causar apreensão em todos nós que vivemos da música, é que não há substitutos para R.C.  nem para Renato Russo ou para o Chorão. Não há novo Caetano, nem novo Chico, ninguém se apresenta como substituto de Bowie , Prince, Cohen  ou Keith Emerson.

O mundo mudou , é certo.Tudo é muito mais rápido. Mas negócios existem porque criam valor, e me parece que nós do negócio da música precisamos considerar muito profundamente se estamos mesmo criando valor para quem nos ouve.

 

 

 

 

 

 

 

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