Ontem , depois de anos de súplicas do Francisco, meu filho mais moço, fomos ao Maracanã.

Sobre todos os pontos de vista, nossa visita de ontem foi uma comédia de erros. Jogo às 19:30, atraso na saída, asfixia no metrô , fila interminável para retirar os ingressos , time reserva , gramado esburacado, futebol horroroso, 0 x 0.

Nossa última visita ao templo sagrado tinha ocorrido em 2015 , logo após a Copa. O Maracanã ainda tinha cheiro de novo e parecia uma construção feita para um futebol e um público que não existiam no Brasil.

Abandonado pelo concessionário, que tenta se desfazer dele, o estádio, palco de duas finais de Copa do Mundo, está no limbo.  Reaberto por ordem judicial, é evidente que tudo  funciona precariamente. Ou seja, o Maracanã está com a cara desses tempos de falência e demolição no Rio de Janeiro.

Apesar dos pesares, o estádio é confortável e oferece uma excelente visão do campo de jogo , infinitamente melhor do que o velho Maracanã, pelo qual os saudosistas insistem em chorar lágrimas de esguicho.

Mas até ontem, mesmo que eu não sentisse nenhuma saudade de arquibancadas de cimento, eu tendia a concordar com a principal crítica que os antediluvianos da minha geração faziam ao estádio: Que ele iria elitizar o futebol. Essa tinha sido também a minha impressão nos jogos que vi na Copa e depois dela, que o público usual do futebol tinha sido expulso das arquibancadas pela inflação no preço dos ingressos.

Ontem , num jogo desimportante de meio de semana, os ingressos eram um pouco mais em conta do que o habitual, mas não tão baratos que pudessem se comparar com a mixaria que eu costumava pagar na minha adolescência quando eu era habitué do velho Maraca.

Esperando na maldita fila para retirar os ingressos , tive bastante tempo para observar a paisagem humana que nos circundava. Para um jogo chinfrim , o público era muito bom, cerca de 30.000 pessoas.  Com um misto de alívio e satisfação fui percebendo que a mistura de comportamentos ,classes sociais e tipos humanos que sempre foi essencial para a experiência da torcida de futebol , estava de volta.  Mas aquele público, majoritariamente jovem, mesmo que semelhante na diversidade, era completamente diferente do “povão” dos meus tempos de arquibancada.

Ao meu lado, um trio de adolescentes barulhentos fazia uma transmissão da fila no snapchat , outro grupo ao lado  diagnosticava a incompetência gerencial da empresa que vende os ingressos, atrás de mim dois casais discutiam sobre uma viagem que fariam.

Vendo essas cenas e observando aquelas pessoas tão diferentes entre si , me pareceu que a imagem que nós fazemos  quando alguém se refere ao povo brasileiro , está totalmente ultrapassada. Os brasileiros jovens de hoje são a geração mais rica e educada da nossa história. Não sou eu que estou dizendo , são os dados do IBGE que nos informam que mais de 40% dos brasileiros maiores de 25 anos completaram o ensino médio , outras pesquisas recentes noticiam que 60%  usam smartphones.

No meio dessa crise de tudo pela qual estamos passando , foi um momento de esperança e alegria verificar o quanto “o povão” de hoje é mais bem vestido, se comunica melhor e é mais ciente dos seus direitos e deveres como cidadão , do que aquela massa rubro-negra da qual eu participava nos anos oitenta.

Essa constatação impõe uma questão urgente para nós da música:  Porque a música brasileira de massa piorou tanto nas últimas décadas, se evoluímos tanto em outras coisas?

 

 

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