A notícia apareceu semana passada. Informava, apresentando os números, que as receitas de bilheterias de artistas do século passado eram responsáveis por mais da metade do faturamento da indústria de espetáculos musicais nos USA. Sendo “artistas do século passado” o longo arco que vai de Willie Nelson até Radiohead.

Não dei maior atenção ao fato, mas o dado ficou registrado em algum lugar no meu inconsciente.

Acompanhei o Loolapalooza de relance, zapeando entre as telas do Multishow, Bis e do Facebook, dando uma conferida quando começavam os shows e observando os comentários pipocando na minha timeline.

Em virtude da minha vida pregressa, tenho uma quantidade desproporcional de saudosistas diversos e roqueiros reacionários entre os comentaristas que aparecem para mim, graças a lógica insondável do algoritmo do Sr. Zuckenberg. Mas felizmente, também mantenho conexões com a realidade do século XXI, graças a outros amigos e conhecidos antenados com a modernidade.

Foram os comentários  decepcionados da juventude com os shows do The Weeknd, que me trouxe a lembrança da notícia sobre a preponderância dos artistas do século passado.

The Weeknd está no topo das paradas com “Starboy”, que será sem dúvida um dos singles do ano. Ele vem despontando como um dos cabeças de chave na nova geração do R&B norte-americano, numa turma que inclui Kanye West,  Frank Ocean, Chance The Rapper, Miguel e Childish Gambino e chega como um bálsamo de originalidade e ousadia na cansada e previsível cena pop atual. The Weeknd, não é dos meus favoritos, mas não creio que nenhum desses citados tenha performance ao vivo muito mais empolgante do que o show frio e sem vida que ele apresentou no Loolapalooza.

Ao contrário o Duran Duran, uma banda que era considerada uma das piores ao vivo entre seus contemporâneos ( U2, Echo & The Bunnymen, etc…), fez um show que agradou tanto aos reacionários quanto aos novidadeiros.

Isso me traz ao título da coluna de hoje e ao cachorro que corre atrás do próprio rabo. Usei essa imagem como título de um ensaio que escrevi no tempo em  que os dinossauros caminhavam sobre a terra, no caderno “Idéias” do falecido Jornal do Brasil.  O Cachorro 1.0 tinha como motes a debacle do Milli Vanilli (os jovens consultem o Google, por gentileza) e o essencial ensaio  “A  Obra de Arte na Era de sua reprodutibilidade técnica” de Walter Benjamin, que aliás, apesar de ter sido escrito em 1936, continua atualíssimo.

Resumindo brutalmente, o que eu apontava então era que a música gravada tinha se transformado na obra de arte e que a performance ao vivo tinha se tornado a reprodução.

Como todos sabemos, a música gravada nasceu como simulacro, como uma mera reprodução da realidade da obra de arte que era a performance musical ao vivo. Até meados dos anos 50 do século passado, isso era uma verdade óbvia. Como todos sabiam que o cartaz que tinham em casa da Monalisa não era a obra de arte que está exposta no Louvre, ninguém duvidava que o disco da Orquestra Filarmônica de Berlim era apenas uma pálida reprodução da experiência da orquestra ao vivo.

Com a constante sofisticação técnica do processo de gravação , a música popular gravada foi invertendo lentamente essa equação, até que na sua obra-prima, “Sgt. Peppers & The Lonely Hearts Club Band”, os Beatles, uma banda que não tocava mais ao vivo, produziram uma obra de arte musical que era totalmente irreproduzível ao vivo. A partir desse marco, o cachorro começou a correr atrás do rabo e nos anos setenta o Pink Floyd já usava gravações em seus shows para reproduzir os efeitos sonoros das canções de “Dark Side of the Moon”. A corrida obrigou a indústria de áudio a dar saltos de qualidade vertiginosos na capacidade dos equipamentos usados para sonorização de espetáculos, mas o rabo sempre continuava um pouco além do alcance do cachorro.

A minha geração, de músicos que surgiram nos anos 80, já funcionava pela lógica de que o disco era a obra de arte e o show a reprodução, mas como o estúdio era então ainda um lugar onde se registrava o que se fazia com instrumentos nos ensaios, de modo geral a distância entre o rabo e a boca do cachorro não era muito grande.

Hoje o estúdio está num laptop e grande parte da música popular que toca no rádio é concebida diretamente nele, através de programação, edição e manipulações sonoras. Simplesmente não há mais nenhuma performance musical original para ser reproduzida ao vivo, ou seja, o rabo finalmente está perseguindo o cachorro.

Mas como o rabo não é todo o cachorro, as performances musicais de EDM , R&B  e Pop eletrônico, cada vez mais dependem de coreografias, projeções e outras mumunhas para distrair o público de uma performance musical inexistente.

Ontem mesmo, dezenas de milhares de fãs foram assistir Justin Bieber num playback magnificado na Praça da Apoteose no Rio de Janeiro. Foram estar com outros fãs, ver seu ídolo, ouvir seus hits em caixas de som gigantes. Suponho que tenham se divertido. Nada contra playbacks pop, raves, festivais de DJs com toca discos cenográficos, que todos sejam proveitosos para quem gosta dessas coisas. Mas essas reuniões de multidões em busca de diversão, por mais que sejam motivadas por artistas que fazem música, não são espetáculos de música. Mas tocar sua música para uma audiência  ainda é fundamental para a os criadores, não só pelo dinheiro, mas principalmente pela interação  instantânea com o público, pela possibilidade de experimentar e aprender com ele.

O fato é que há uma nova geração de verdadeiros e originais artistas de música que criam em laptops. Torço que eles sejam capazes de achar uma maneira de fazer espetáculos que façam suas carreiras serem tão duradouras quanto as das gerações que os precederam. Mas por enquanto, são os velhinhos que estão mandando nos palcos.

 

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