Primeira: Tecnologia

Há mais ou menos oito anos, a primeira geração de iPhones estava no mercado havia alguns meses. A Nokia era a maior fabricante de telefones celulares do mundo. Vendeu perto de 500 milhões de aparelhos naquele longínquo 2008, contra cerca de 11 milhões de iPhones.

O sistema operacional Android acabava de ser revelado pela Open Handset Alliance, formada por Google, HTC, Motorola e Samsung, entre outras. Lembro de assistir a um vídeo em que Sergei Brin apresentava, entusiasmado, um primeiro protótipo rodando Android. Parecia um 386 usando o Internet Navigator na década de 90, exceto, é claro, pelo fato de que o Android, menos de 10 anos depois, viria a ser o sistema operacional de 3 em cada 4 celulares em todo o mundo.

Para a Google, vender o hardware não fazia parte dos planos, como fazia para a Apple. Tratava-se de estar presente no hardware dos outros. Apostava que o hardware viraria uma commodity de pouco valor agregado, ao mesmo tempo em que produzia essa comoditização, já que transformava todos os celulares, independentemente do fabricante, em celulares Android, cercados por serviços por ela mesma oferecidos. Nunca foi por acaso a Google ser a única empresa da Open Handset Alliance com DNA de software e internet.

O plano de reação da Nokia foi reformular sua divisão de serviços, que não só agregaria valor a seu hardware, diferenciando-o dos outros concorrentes, mas que também colocaria a finlandesa entre os players de serviços de internet. Um celular recheado de serviços atraentes como navegação guiada, armazenamento em nuvem, excelente experiência de e-mail, entre outros, poderia lutar contra essa tendência de virar um commodity a serviço de nuvens alheias e caixas registradoras alheias. Eis porque, em um dado momento, a ideia de lançar aparelhos com Android viria a ser rechaçada. Não deu certo, como sabemos, mas isso é uma outra história.

Segunda: Música

Nokia Comes With Music, lançado no Brasil em 2008, tinha uma proposta inédita. Enquanto a iTunes Store estava disponível em poucos mercados e cada download custava 99 centavos de dólar, o smartphone Nokia 5800 vinha com uma licença para baixar músicas à vontade da loja da Nokia pelo período renovável de um ano, sendo que o usuário mantinha as músicas para sempre depois de baixá-las. E o catálogo era de dar inveja: milhões de faixas disponíveis.

Imagine que interessante para a indústria de música poder estar em uma caixinha que a Nokia fabricava aos milhões! E imagine que interessante para a Nokia poder se destacar de todas as outras na oferta desse tipo de serviço.

Lembre-se de que, naquela época, a revolução do streaming ainda não tinha acontecido como a conhecemos hoje, muito menos em países com pouca penetração de banda larga móvel. O Spotify não seria lançado até o final de 2008, e assistir a um vídeo do Youtube no celular não era, nem de perto, tão bom, nem tão comum como hoje. O serviço fazia sentido comercial, também porque o caminho a seguir não era assim tão claro para nenhuma das indústrias envolvidas.

Terceira: Copyright

Um dos motivos pelos quais este colunista ingressou nos quadros do jurídico da Nokia foi exatamente a necessidade de suporte para negociações e contratos que antecederam, acompanharam e sucederam o lançamento do Comes With Music por aqui. Ali aparece Guta Braga, juntamente com o restante do time de música da Nokia: o genial líder Ady Harley, Gisele Pereira, Cleiton Campos, Bruno Montagner. Gente fina, elegante, sincera e brilhante que também vivia e vive num lugar tão particular da nossa época que é esse mash up de cultura, conteúdo e tecnologia.

Com a tarefa de licenciar milhões de obras para a nova plataforma em uma época em que a prática corrente era autorizar obras uma a uma, individualmente, uma frase de um diálogo do Retorno do Rei descrevia a empreitada e o espírito: “Certainty of death. Small chance of success. What are we waiting for”?

Só podia dar certo. E deu mesmo. Claro que o Comes With Music, a Nokia e seus projetos para permanecer no topo do mundo não são, hoje, mais que uma interessantíssima história da tecnologia em nossos tempos, mas é sempre bom relembrar como aquele time colocou esse serviço na rua com uma competência memorável.

O carinho e a amizade da criadora do MCT, nascidos nessa época em que compartilhamos as trincheiras, acabou por originar o gentil convite de escrever aqui mensalmente, aceito tanto pelo amor ao tema quanto pelo gosto da escrita.

O colunista se esforçará para que os textos mais jurídicos não sejam modorrentos, e para que os textos menos jurídicos tragam, mesmo assim, algum elemento do mundo dos causídicos. Impressões dos leitores, generosos ou draconianos, serão sempre bem-vindas.

©2018 MCT - Música, Copyright e Tecnologia.

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?