Caríssimos,
Primeiro devo-lhes uma explicação pela minha ausência por três sextas-feiras consecutivas, que coincidiram com dois feriados e uma greve. Teria excelentes justificativas para essas férias por conta das minhas múltiplas atividades como artista/músico/compositor/ perito judicial/produtor/consultor/pai de família e marido, a minha vida loka de pau-prá-toda-obra musical.

Mas tenho a obrigação da honestidade com vocês que me dão a honra da sua atenção, então tenho que admitir que nas últimas semanas não tenho conseguido produzir nada de nada, em nenhuma dessas atividades.

Bem que eu tento. Fico na frente do computador com o Word aberto, acrescento umas palavras num laudo pericial ou num texto, releio, apago o que escrevi, começo de novo. Desisto. Passo para o Pro-Tools, abro a sessão, ouço, faço um corte aqui, um “fade” ali… quando eu dou por mim estou vendo algum vídeo das delações da Odebrecht. O mundo não acabou com a delação do fim do mundo, mas ela aniquilou definitivamente com a minha capacidade de concentração.
Sei que o MC&T não é lugar de se discutir política. Prometo que não vou falar de políticos, partidos, nada disso.

Mas vivemos e trabalhamos no Brasil, e sendo assim, me parece impossível escapar de todo esse universo de falcatruas bilionárias que vem vindo à tona nos últimos anos, que tiveram seu ponto máximo na desfaçatez nos depoimentos dos executivos da construtora.

O que me perturba não é propriamente a generalização da roubança na política, essa os observadores minimamente atentos já estavam carecas de saber. O que me deixa realmente perplexo são as intermináveis ramificações, os múltiplos tentáculos que espalham por toda a sociedade o organismo parasita da corrupção.

Nós, que vivemos no micro negócio da música, costumávamos acreditar que a ligação direta entre o público ouvinte/pagante e as nossas receitas, nos isolavam das influências do universo da corrupção sistêmica. Como trabalhamos, felizmente, num negócio com pouca interferência do Estado, as muitas pequenas picaretagens do nosso mercado, os jabás, os favorecimentos comprados, as notas frias, não pareciam se relacionar de nenhuma forma com as grandes negociatas das corporações.

Mas, como em muitos outros ambientes de negócios, que achavam que a roubalheira na política não lhes afetava, vamos descobrindo a cada nova revelação que a safadeza com o dinheiro público , afinal não estava tão longe de nós.
Porque o que surge de realmente novo e assustador, na exposição das entranhas dessa máquina de roubar o nosso dinheiro, é a constatação de que os mecanismos usados para lavar as montanhas de dinheiro roubado atingem e distorcem os mais diversos mercados.

Das joalherias ao mercado de artes visuais, dos estaleiros de iates ao mercado imobiliário, em todos os lugares onde apareceram compradores ou “investidores” cheios de grana e pouco afeitos a discutir preços, existe hoje uma fundada desconfiança que por trás daquela disposição em gastar, escondia-se um ladrão querendo limpar seu dinheiro sujo.

No mercado da música vimos nas últimas décadas surgir a figura do “investidor”. Um sujeito oculto atrás de empresários, que dispõe de somas milionárias para investir na divulgação de novos artistas. Era evidente que havia algo de muito estranho por trás dessas figuras.

Quem seriam esses personagens, desconhecidos do meio musical, que estavam dispostos a “investir” na carreira de um artista desconhecido, uma verba que nenhuma gravadora multinacional jamais disponibilizou para um lançamento? Porque eles não apareciam nem para celebrar quando os seus investimentos eram um sucesso?

No meio da avalanche de lama em que vivemos nos últimos anos, passou meio despercebida a Operação “Maus Caminhos” da Polícia Federal que revelou desvios de 112 milhões de reais no Fundo Estadual de Saúde do Amazonas, no ano passado. Pois bem, nela descobriu-se que o “dono” do Instituto Novos Caminhos, a ONG responsável pelas fraudes, um miserável chamado Mohamad Mustafa, entre outros artifícios para lavar a dinheirama roubada, era um investidor em artistas sertanejos através de uma famosa produtora paulista.

Conclui-se da notícia, que o dinheiro que devia custear a saúde dos amazonenses era usado para pagar os jabás que iriam transformar duplas desconhecidas em astros da música sertaneja. Uma vez estabelecidos como sucessos radiofônicos, os artistas serviriam para lavar centenas de milhares de reais por mês, pela emissão de notas fiscais de receitas fajutas.
Mas esse é apenas o caso comprovado. Pelo mercado ouvem-se uma infinidade de histórias de somas astronômicas investidas em jabás, megaproduções de clipes, compra de “likes”e “views” , tudo para construir do dia prá noite artistas de um hit só, que cobram preços irreais por shows e tem agendas sempre lotadas.

Diante disso é inevitável a pergunta: Quantos dos novos artistas que surgem meteoricamente na cena musical, não serão financiados pelo dinheiro de bandidos? Quanto as métricas de sucesso no mercado de música ainda medem a preferência dos ouvintes, quanto é apenas reflexo do sucesso da indústria de lavagem de dinheiro?

O lamaçal pestilento de corrupção que tomou conta do país nas últimas décadas invadiu todas as frestas, não deixou nada, nem ninguém, livre do seu cheiro podre.

Não só pelos negócios que se estenderam os braços da corrupção na música. Reparem que entre os delatores da Lava-Jato contam-se dois “colegas” compositores de música popular. João Santana, o gênio do mal do marketing, um dia já foi “Patinhas” letrista oficial e integrante do grupo Bendengó, uma das grandes bandas alternativas brasileiras dos anos 70 ( Eu era fã.). Pedro Novis ex-presidente da Odebrecht, era Pedrinho, poeta que escreveu em parceria com Caetano Veloso a canção “Relance” gravada por Gal Costa.

Eu sou um otimista de carteirinha, por isso tento terminar minhas colunas sempre com uma perspectiva positiva, por mais nefastas que sejam as observações. Não consegui faze-lo na sexta-feira retrasada quando escrevi esse texto, nem agora quando o finalizo para publicação.

Sei que a luz crua da verdade é sempre melhor que a sombra turva da hipocrisia, que tudo o que se revela agora haverá de produzir uma mudança profunda na nossa sociedade. Mas por enquanto eu só fico pasmo e triste, constatando a profundeza escura do buraco onde estamos.

©2019 MCT - Música, Copyright e Tecnologia.

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?