Dessa vez a culpa é do Zuckenberg.

Estava eu com uma coluna revista, arrumada e cheirosa, prontinha para ser despachada para os meus prestimosos e pacientes colegas da MC&T, quando fui dar aquela despretensiosa checadinha matutina básica no Facebook.

Dei de cara com o texto abaixo, que o Mark , sei lá porque, quis me lembrar.  Foi escrito dois dias depois da morte de David Bowie, me pareceu algo presciente.

“Amei “Blackstar” querendo mais, achando que seria o início de outra fase. Esperei por meses, desde o lançamento da canção título, que postei aqui e me pareceu mais um entre tantos renascimentos.

Quando ouvi a última música do disco ” I can’t give everything away” , que de alguma forma explicava o jogo de revela-esconde que foi toda a obra do Bowie, desconfiei que talvez fosse a última.

Mas o pensamento logo desapareceu, porque havia tantas possibilidades no novo desenho sonoro e no quebra cabeça da estrutura das canções, que definitivamente aquele disco era só mais um começo.

Mas era o epitáfio do Bowie, planejado meticulosamente, seu último gesto dramático ( comme il faut) para o teatro das coisas terrenas.

Uma reafirmação categórica do seu compromisso com a arte, essa coisa de difícil definição, mas que numa entrevista que li agora ele sintetizou tão bem : “it’s about intention, integrity and the power to move people” ( intenção, integridade e o poder de mover as pessoas).

E arte parece uma coisa inteiramente inútil no mundo de hoje, uma preocupação com o espírito fora desse tempo de urgências materiais para evitar as muitas catástrofes que se desenham no horizonte.

Sendo o otimista otário que sou, vejo um paralelo com a morte do Lennon (ídolo, amigo e parceiro de Bowie), que também partiu de repente após uma demonstração de potência artística. A morte de Lennon foi um ponto de inflexão essencial, que decretou oficialmente que “the dream is over”, que os anos 60 tinham virado história , e era preciso sonhar com outra coisa … e os punks e outros maluquetes que até então eram personagens coadjuvantes da cena cultural, de repente viraram protagonistas.

Comentário de hoje: Essa é a parte “profética “que me impressionou e deu vontade de usar o texto. Passados doze meses da viagem final de Bowie para as estrelas, num ano em que depois ainda se perderiam tantos artistas de enorme valor (Prince, Leonard Cohen, etc e etc…) , realmente parece que a partida de Bowie é o marco que inicia a saída de cena da geração que dominou a música pop entre os anos 60 e 80 do século passado.

Deus há de me conceder a graça de chorar lágrimas de esguicho quando Dylan partir e tantos outros dinossauros que ainda habitam entre nós.

Mas esses que sobrevivem, por maiores que sejam, já são figuras da história, já não preocupam-se em serem relevantes na cena pop. Exceção feita ao McCartney, que anda costeando o alambrado do ridículo, com suas tentativas de aproximação do pop de hoje. Tinha que falar mal de alguém, né Beni? Estava indo tão bem…

Bowie, apesar do sumiço de uma década, continuava influente, porque carregou a chama dessa doideira controlada chamada arte durante os anos 70. Foi o profeta da ressurreição da música pop como forma de expressão artística no mundo pós-Beatles. Tudo o que se produziu de inovador dos anos 80 em diante se referia a ele de alguma forma.

Isso foi outra coisa que o tempo confirmou. Madonna foi só a primeira de uma enxurrada de artistas, de todos os gêneros, que se revelaram profundamente influenciados por Bowie, depois que ele já não estava mais presente.

Há um vazio gigante, mas a natureza não admite o vazio, algo sempre preencherá o espaço do que desaparece. E o que desapareceu com Bowie foi a pretensão de fazer arte com a música popular.

Que venha logo o que tiver que vir.”

Sou um otimista de carteirinha, então já diviso no horizonte uns herdeiros da tocha da arte pop , mas isso será assunto da minha próxima coluna … e assim a tal coluna cheirosa, será adiada mais uma vez.

Saudações Musicais,

Beni

 

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