Entre as muitas notícias interessantes publicadas essa semana no MC&T, uma me chamou particularmente atenção.

Era a reprodução de uma nota da coluna do Lauro Jardim no Globo, que informava sobre o aparecimento do “jabá negativo”.

A nossa velha corrupção na radiodifusão alcançou um novo patamar de sofisticação e agora além de pagar para tocar, os venais da mídia oferecem aos artistas e seus empresários a possibilidade de pagar para os seus “concorrentes” não tocarem. Semana passada reclamei da falta de imaginação e ousadia da programação das emissoras de rádio, não se pode dizer o mesmo das suas práticas “jabazísticas”.

O tradicional “pagar para tocar” não seria notícia, já que é uma realidade tão disseminada e normalizada, que hoje frequentemente se apresenta a compra de execução em rádio e TV como um negócio comercial como outro qualquer. Parece que a ideia de emissoras de radiodifusão como uma concessão de serviço público é definitivamente uma coisa do passado.

O jabá é um assunto imenso, que ainda abordarei aqui em outras colunas, mas queria hoje me concentrar num aspecto que me parece muito pouco discutido. É normal que a indignação contra o jabá se concentre na sua imoralidade e ilegalidade, mas vou deixar esse aspecto por um momento para observar os seus efeitos sobre o mercado de música.

Do ponto de vista estritamente econômico o pior mal que qualquer corrupção causa não é o prejuízo ao interesse e aos cofres públicos, mas a distorção que ela gera nos mercados. No caso do mercado de música isso é bem evidente.

Embora a produção musical brasileira nunca tenha sido tão grande ou diversificada quanto é hoje, um número ridiculamente ínfimo de lançamentos alcança alguma exposição pública nas rádios e tevês.

O público é sempre apontado como bode expiatório. As rádios e televisões tocam o que o público quer, argumentam em sua defesa os radiodifusores. Mas pergunto, como é que o público pode querer o que ele não conhece?

Todos nós sabemos que por trás dessa descrição ingênua do mercado de execução pública como uma perfeita expressão da lei da oferta e da procura, se esconde a realidade de uma rede de interesses escusos difícil de dimensionar, desde “investidores” em música que usam negócios artísticos para esquentar dinheiro, a emissoras que sobrevivem quase exclusivamente de jabá.

O que resultou da progressiva naturalização do jabá foi uma degradação crescente da música brasileira, com cada vez com menos espaços para novos artistas, guetificação dos gêneros de música e precarização geral na cadeia produtiva.

Vivemos um tempo inédito no país, em que todo dia a opinião pública demonstra com clareza que não tolera mais a corrupção, é um bom momento para passar o nosso negócio à limpo.

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