De forma geral ouvimos música gravada hoje em padrões de qualidade inferiores aos dos anos 70.

Não me interprete mal, não sou nenhum saudosista do vinil ou coisa que o valha, muito pelo contrário. Saudei com grande entusiasmo a tecnologia digital e fui dos primeiros a adotá-la em minhas produções, quando muitos ainda relutavam (com razão) em abraçar a novidade.

Qualquer produtor, jurássico o suficiente para ter experimentado o dissabor de ouvir a sua gravação se tornar um Lp de vinil, há de reconhecer que o CD aproximou incrivelmente o ouvinte dos resultados sonoros obtidos nos estúdios de gravação. Essa melhora aparente talvez tenha trazido em si o “ovo da serpente”.

A percepção de ganho de qualidade que o CD trouxe para os consumidores de música iniciou uma descida ladeira abaixo, que leva hoje a maioria dos consumidores a admitir como “estado da arte” da reprodução de gravações é um arquivo MP3de 128kbps ouvido em fones de ouvido.

A combinação da introdução CD com a evolução na construção de alto-falantes conduziu a maioria dos ouvintes a aposentar seus antigos sistemas de som por menores e aparentemente “mais modernos” sistemas integrados de som.

Em áudio se costuma dizer que a qualidade de um sistema de reprodução é tão boa quanto o pior dos seus componentes. Ou seja, se o seu CD player e seu amplificador são ótimos, mas suas caixas de som são terríveis, o seu som será terrível.

A suposta evolução dos sistemas de som compactos, propagada pela indústria de aparelhos eletrônicos, na realidade representou uma substancial perda de qualidade tanto nos amplificadores (que abandonaram as válvulas pelos mais econômicos transistores), quanto nas caixas acústicas (que por menores são fisicamente incapazes de reproduzir fielmente as frequências mais graves).

Assim a transição do LP para o CD acabou resultando numa melhora exponencial num dos elos da corrente e numa piora significativa em dois outros componentes do sistema de reprodução de música gravada.

E isso foi o só o começo da ladeira, porque com a internet e o MP3 a queda da qualidade de áudio acelerou e se aventurou em novas profundezas, com o consumidor cada vez mais trocando fidelidade por praticidade.

Curiosamente, ao mesmo tempo que a experiência da música gravada para o ouvinte médio perdia qualidade, os sistemas de captação, mixagem e amplificação de música ao vivo melhoravam estupidamente. Quando eu lembro dos meus tempos de baterista e das minhas eternas brigas com o som dos monitores, morro de inveja dos músicos de hoje e seus fones in-ear.

É no mínimo curioso observar que as receitas de música ao vivo aumentaram na mesma proporção que a qualidade do áudio dos shows, trajetória oposta ao das receitas e da fidelidade da música gravada.

Minha conclusão, qualidade de áudio é uma coisa que em tese o consumidor não valoriza, mas na prática ele sabe perfeitamente dar valor as melhores experiências de música.

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