Quando o maremoto chegou, a Música estava distraidamente deitada na areia. A Mídia Impressa, mais atenta, reagiu à sirene de alarme e correu para o alto do prédio mais próximo. Enquanto isso, o Audiovisual olhava de cima a chegada da grande onda , apreensivo, mas se sentindo razoavelmente seguro do alto das colinas de Hollywood.

Estando na praia, nós da música fomos os primeiros a ser carregados pela maré que destruiu o mundo da mídia que conhecíamos.  Fomos os bois de piranha do tsunami digital, testamos a força da correnteza e mostramos para os que ainda não tinham sido levados, que qualquer resistência seria inútil.

Mas isso é passado. Hoje, decorridos quase dezoito anos do aparecimento do Napster, o mercado digital da música finalmente atingiu a maioridade. Turbinadas pelos ganhos com os serviços de streaming, as receitas com a música gravada finalmente voltaram a crescer. A tarefa do momento não é mais apenas sobreviver ao desastre, mas reconstruir o mercado de música.

Quem precisa reconstruir a casa depois de uma catástrofe, deve aproveitar a oportunidade que o destino lhe apresentou para corrigir as fragilidades e desconfortos da casa antiga. Então me parece oportuno que façamos uma  lista de defeitos que devem ser evitados na nova edificação e de melhoramentos que gostaríamos de ver nela.

Inicio com dois pontos , mas convoco a colaboração dos leitores a elaboração dessa lista de desejos. Escrevam nos comentários da página do MC&T do Facebook, ou na minha própria, o que deve existir, ou o que você não gostaria que existisse, no novo mercado da música.

Falta de Transparência.

Contratos com cláusulas incompreensíveis, pegadinhas contábeis , descontos inexplicáveis, pagamentos absurdamente demorados, há uma lista interminável de razões que justificam a sensação dos criadores de que os empreendimentos que administram seus direitos são empresas perversas , cujo único objetivo é enganar os trouxas que são obrigados a negociar com eles.

A absoluta falta de transparência dos negócios com música gravada determinou um antagonismo entre gestores de direitos e criadores, sem paralelo no negócio do entretenimento.  Diretores e atores reclamam da interferência dos produtores nos seus filmes, artistas de televisão reclamam da ditadura da audiência, autores reclamam da distribuição dos seus livros, mas rarissimamente os empreendedores de cinema, televisão ou literatura são acusados de picaretagem serial explícita , como é costumeiro na indústria da música.

O preço dessa desconfiança endêmica entre artistas e negociantes de direitos foi pago quando a música, em meio a crise, precisou vender seu peixe.  Vendo ruir as empresas que ajudaram a criar suas imagens e fortunas, os artistas da música, em sua grande maioria, nunca demonstrou qualquer compaixão pelo infortúnio das corporações. Sem capacidade de mobilizar seus astros em sua defesa , as empresas da música se tornaram sacos de pancada universais. Vendo-se no papel de vilões da história, algumas trataram de encarnar o personagem que lhes foi atribuído, esquecendo qualquer resquício de compromisso com a arte.

O novo mundo digital oferece uma oportunidade única de corrigir esse panorama deprimente. Criadores querem fazer música e ganhar dinheiro com ela, empreendedores querem criar negócios e fazer dinheiro com música. Não há entre eles nenhum irreconciliável conflito de interesses, pelo contrário o que há é uma necessidade mútua. Não é difícil que criatividade e negócios vivam juntos , bastam clareza , objetividade e honestidade.

Concorrência Predatória. 

Nos anos da destruição, quando o tsunami da Internet avançava sobre todas as formas de criação, um fato ficou dolorosamente  claro. Enquanto o Audiovisual e a Mídia Impressa eram capazes de se manifestar num bloco único na defesa dos seus interesses comuns, a Música se perdia em intermináveis embates internos.

É impressionante a incapacidade dos atores do mercado de música deixarem de lado seus interesses particulares para trabalharem pelo bem de todos. A dificuldade de coordenação de interesses parece universal , mas no Brasil ela assume tons surrealistas. Aqui infelizmente não é incomum alguém preferir prejudicar todo o mercado antes de poder beneficiar um concorrente, usar os espaços de interesses coletivos para benefício próprio ou ameaçar a sobrevivência de instituições coletivas por conta de uma picuinha particular.

A absoluta discrepância dessas atitudes com as que vemos no mercado de audiovisual e editorial , já me levou a ouvir de mais de um interlocutor que esse espírito de competição suicida é típico “do pessoal da música”. Como se houvesse algo no DNA dos músicos que os impelisse a concorrência predatória. Nada poderia estar mais longe da realidade. Foi o povo da música que ergueu no Século XIX as sociedade de gestão coletiva de direitos , são  músicos que costumeiramente trabalham em  regime de mutirão em bandas, grupos e orquestras. Ou seja, o problema não é do “pessoal da música”, mas do ambiente destrutivo de competição que a mídia , as gravadoras e os empresários criaram para os músicos em fins do Século XX.

No Século XXI a Música se defronta com um novo grande desafio, atrair o interesse de um público cada vez mais solicitado por novas formas de entretenimento. Ninguém vai resolver essa parada sozinho, é preciso renovar a nossa capacidade de agir coletivamente para que a Música volte ao centro das atenções do público.

Como disse antes, espero as contribuições de vocês, meus caríssimos leitores, para retomar o assunto do novo mercado da música em novas colunas.

 

 

 

 

 

 

 

 

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